De acordo com o professor Tibor Rabóczkay, presidente do Programa USP Convive, a mensagem é propositalmente agressiva. “Apelar para o bom sentimento das pessoas nem sempre funciona. Precisa dar um certo baque. Se pegarmos alguém abandonando animal no campus, é caso de delegacia, pois é proibido por lei”, diz.
E o contexto para a campanha não poderia ser melhor, pois, segundo Rabóczkay, dezembro, janeiro e fevereiro apresentam um crescimento no número de cachorros abandonados na universidade por ser período de recesso. “Nessa época, os voluntários e os componentes do programa já tremem nas bases. Fulano viaja para a praia, abandona o animal, volta da praia, compra outro e no próximo verão abandona de novo. É um desrespeito total à vida”, comenta.
Foto: Cartaz contra o
abandono de animais perto da
portaria principal da USP (Foto: Clara Velasco/G1)
Superlotação
Apesar de não saber exatamente qual é aumento no abandono, Rabóczkay diz que a média de cães deixados no campus é de dez por mês, número suficiente para deixar o canil em um estado constante de superlotação. Atualmente, o local está abrigando cerca de cem cachorros, mas ainda há 80 vagando pela universidade. O programa recebe solicitações constantes de funcionários, alunos e visitantes da USP que se queixam de ter visto um animal em condições precárias ou agressivas. O recolhimento, porém, é feito na medida em que surgem vagas no espaço, o que acontece apenas com doações.
Segundo o professor José Sidnei Colombo Martini, da Coordenadoria do Campus da Capital (Cocesp), um programa de reestruturação do canil já está sendo feito em conjunto com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ). “A atual instalação já tem mais de dez anos, então temos que modernizar o espaço. Ela também será adequada à quantidade de cachorros do canil para lidar com o problema da lotação”, diz.
O coordenador também atenta para o fato de que o canil é, antes de tudo, um abrigo temporário para os animais. “Eles passam por aqui, são cuidados e então oferecidos à sociedade com doações. Não é uma estadia permanente”, afirma. “E com a atual política de divulgação [contra o abandono], nós esperamos que esse número vá reduzindo gradualmente. Mas como nós não temos controle sobre isso, estamos nos preparando para enfrentar a situação na medida do possível.”
Voluntários
O Programa USP Convive e o canil une tanto funcionários da universidade quanto voluntários. Ele foi criado em 17 de outubro de 2001 por meio de uma portaria do então reitor, o professor Jacques Marcovitch. Segundo o professor José Sidnei, funcionários da USP foram convidados e indicados pela portaria para cuidar dos animais. Desde então, um grupo de jovens externo à USP e chamado de “Patinhas Online” se associou ao programa voluntariamente.
“O voluntário se dedica mais. Ele vai à feira de doação, organiza eventos pra arrecadar dinheiro, faz trabalho de socialização dos cães, dá banho, passeia”, conta Elizabeth Rabóczkay, uma das integrantes do programa e também funcionária da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH). Ela foi indicada pela portaria em 2001, sendo considerada uma das funcionárias mais antigas e dedicadas do canil. “É muito importante ter voluntários, pois sem eles fica difícil de fazer todos os trabalhos de castrar, comprar vacinas, entre outros.”